A riqueza da minha existência
Meus pais concluíram o segundo grau com muitas dificuldades, talvez por esta razão sempre priorizassem bastante os nossos estudos como forma de termos sucesso na vida, essa foi depois da vida, claro, a melhor riqueza que eles nos deram.
Lembro que meu pai, comerciante autônomo, sempre trabalhando muito e por isso um pouco ausente de casa – fato compensadíssimo pela minha mãe que saíra do emprego para se dedicar à criação dos três filhos e aos cuidados com a casa – mesmo sem nunca ter aberto nenhum deles, comprou de uma só vez, de um ambulante, várias coleções de livros, a saber: uma Bíblia Sagrada ilustrada em quatro volumes; uma coleção de história antiga cheia de estátuas gregas; uma coleção completa de Machado de Assis com encadernação de luxo, que me deliciou anos mais tarde na faculdade; um manual de Português, uma coletânea da Literatura Mundial e por fim, uma coleção dos Clássicos da Literatura Infantil. Estes livros preencheram as prateleiras da estante nova, que minha mãe limpava com todo zelo, e a minha vida de imagens, palavras, histórias e fantasias que me acompanham até hoje.
Outra aquisição importantíssima do meu pai foi uma enciclopédia chamada TUDO. Era da Editora Abril e deu muito trabalho, pois foi montada fascículo por fascículo e depois encadernada com muito esmero. Tal enciclopédia foi o “Google” de toda a minha vida escolar, lá estava tudo mesmo que eu precisava para as pesquisas e trabalhos solicitados pelos professores, isso quando eu não percorria suas páginas letra por letra, só por gosto mesmo de ler sobre os verbetes.
Rememorando estes fatos, reflito como meus pais se preocupavam em nos dar formação, pois, imagino que foram muito caros aqueles livros, já que meu pai lutava muito para nos sustentar sozinho. Eu, hoje, compro-os com tanta dificuldade! Meu coração se enche de gratidão...
Portanto, na minha primeira infância, tanto em casa como na escola, meu universo era povoado de contatos com a leitura. Na 1ª série, tínhamos a salinha de “ler”... Cheia de almofadas e livros coloridos. Foi lá que li meu primeiro livro sozinha: Um dono para Buscapé , que contava a história de um cachorrinho vira-lata que seguiu um menino até a escola e não o largou mais...Eu também nunca mais consegui parar de ler.
Mais tarde um pouco, já na pré-adolescência, tive a sorte de ter maravilhosas professoras de Língua Portuguesa, Sheila, Ademir e Valderez. Elas, sabiamente, perceberam a minha paixão pela leitura e incentivaram bastante as minhas idas semanais à biblioteca da escola. Neste tempo, entre outros, li toda a coleção Vaga-Lume: A marca de uma lágrima (meu primeiro romance), Sozinha no Mundo, Os barcos de papel, O escaravelho do Diabo, As Polianas Menina e Moça, o Pequeno Príncipe, as Crônicas de Drummond e Fernando Sabino... Alías, nesta época, morreu Drummond e a Professora Valderez tornou este momento memorável em nossas vidas, enchendo-o de emoção e significado.
Ainda no fim do primeiro grau, fui exposta a outro tipo de leitura que também me atraiu muito: a informativa. Meus professores de História eram igualmente fantásticos. Apaixonei-me por História antiga, mitologia grega e sobre o passado e o presente do país. Foi então que comecei a ler periódicos, jornais, revistas e os livros didáticos.
Tudo que estudei no ensino fundamental foi importante para mim, lembro de tudo até hoje, inclusive da minha perene dificuldade com a matemática, o que nunca me fez perder um ano, mas me rendeu muitas horas de estudo na companhia dos colegas que sabiam mais. Naquele tempo, tudo era bom. Meus pais nos poupavam das dificuldades da vida, lutavam sozinhos e exigiam de nós apenas a dedicação aos estudos.
Já naquela época, meu gosto pela leitura conseguiu sobreviver ao pouco interesse das pessoas que ficavam nas bibliotecas da escola pública, geralmente, professores readaptados e com poucas condições de atender as nossas exigências de crianças e adolescentes. Não incentivavam a leitura, apenas conservavam o ambiente livre de bagunça e barulho e os livros organizados nas estantes, acessíveis ao nosso empréstimo, o que já era uma boa coisa. Salvo uma professora já bem idosa, do Centro Educacional 02 de Sobradinho, da qual não me recordo o nome, mas que gostava de nos sugerir livros e ajudava-nos a procurá-los. Era uma simpatia.
No Ensino Médio, lembro-me de uma professora paulista com sotaque carregado, que fazia a nós, as “normalistas”, nos prepararmos diariamente para lermos ou recitarmos alguma coisa, na aula, de acordo com o estilo de época que estávamos estudando. Assim lemos os cancioneiros, os árcades, as odes, o barroco, os romances, os manifestos e de tudo um pouco ficou na minha cabeça, porque no Magistério era dada ênfase maior ás disciplinas pertinentes ao curso profissionalizante. Então, quem não tinha bons alicerces, se afastou muito da leitura, restringindo-se àquelas obrigatórias aos vestibulandos.
Fatalmente, alguém como eu, acabou na Faculdade de Letras. Passei cinco anos estudando o que mais gostei na vida acadêmica: Literatura. Mas, confesso, que li muito para fazer os trabalhos, seminários e provas, e pouco por prazer e vontade. O que me cativou nestes anos de UnB foi a paixão dos meus Mestres pela Literatura e sua Teoria, pelos Autores, por suas teses. Os discursos eram inflamados e a retórica nos fazia desejar conhecer a fundo alguma coisa assim também. Foi ali que conheci e gostei dos Sermões de Padre Vieira, dos “sertões” de Graciliano e Guimarães, das “pessoas” de Fernando, das poesias de Cecília Meireles e de Florbela Espanca, das idéias de Clarice Lispector, e do humor de Ariano Suassuna.
Ariano é um capítulo à parte. Gosto de tudo. Ler seus textos, ver e ouvi-lo falando. Acho-o incrível!
Outra coisa que li, neste período, e me marcou para sempre, foi um livro chamado Quase Memória, de Carlos Heitor Cony, desde então, procuro acompanhar seus escritos.
Sinto-me integrante de uma elite privilegiada. Sou uma leitora. Tenho a alma cheia das coisas lindas que já li e ávida sempre por mais. Tenho na memória meus professores, suas aulas apaixonadas e apaixonantes, os debates com os colegas, as leituras de filmes, de peças, a conversa entre textos do passado e contemporâneos, as analogias com a vida real.
Tenho amigos escritores e gosto da conversa à toa com eles, regada a um bom vinhozinho, quando destrincho seus romances e suas vidas... Cito aqui, meu querido Geraldo Lima e seu último romance UM, que é tudo de bom e as crônicas da minha linda Celina Cassal. Aliás, tenho amigos que escrevem tão bem que até a referência de um endereço ou felicitações de aniversário são poéticas: Ângela Sabat, Joel Pires, Edimar Almeida, Rosiel Moura.
Leio tudo, gente, situações, olhares, sorrisos, músicas, gestos, livros, bulas, receitas, blogs, intenções, recados, e-mails, entrelinhas, artigos, vírgulas, corações... Minha vida e minha alma são cheias de letras. Eu amo estudar, aprender. Estou sempre lendo alguma coisa.
Espero fazer pelos meus filhos - Arthur (aludindo ao Rei de Camelot da Literatura Inglesa) e Heitor (referência a Odisséia de Ulisses) – e por meus alunos o que os meus pais e os meus professores fizeram por mim: abriram- me as portas para uma existência muito mais rica por meio do gosto pela leitura, que muitas vezes me livra das mesquinhezes da vida e da pequenez de algumas pessoas, como bem diria outro dos meus autores preferidos, Caetano Veloso, com o conhecimento e gosto pela Língua manifestados nas letras de suas músicas... “ Navegar é preciso, viver não é preciso...”.
Professora Jeanne Gomes Pereira Lima
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Isso é fazer uma revisão de vida...
ResponderExcluirTodo mundo deveria fazer o mesmo, com esse mesmo carinho que vc demonstrou... e aproveitar o tempo daqui pra frente!!