Ensaios

Criei este espaço para escrever alguma coisa, quando tiver vontade...sem compromissos acadêmicos. Falar de mim, da família, de sentimentos, acontecimentos, trabalho...tudo que faz parte da minha vida...partilhando-a um pouco.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Câncer

Alguns já sabem que amo ler e escrever. Ensaiei algumas vezes teclar algumas palavras desde que fui diagnosticada com câncer de mama, em abril deste ano de 2015. Para quem já era diagnosticada com transtorno de ansiedade, pense meu amigo leitor, quantas pensamentos e palavras povoam minha mente, principalmente nas madrugadas, desde então. Fora a verdadeira preocupação de não escrever nada piegas, do tipo "pobrezinha de mim, estou com câncer", porque nunca tive este sentimento. Em alguns momentos, não posso mentir, tive raiva. Raiva de estar doente, raiva de não poder estar fazendo tudo que preciso e gosto e principalmente raiva da impotência, de descobrir que podemos tentar, mas não comandar a nossa vida. Levou algum tempo e longas conversas com Deus para que eu começasse a compreender um propósito em tudo isso e começar a ser grata por ele. Bom, a primeira coisa que preciso falar é que meu coração (Espírito Santo) me avisou que algo não estava certo. O médico já ia me liberar para o retorno dos próximos 6 meses, dizendo que meus nódulos eram benignos, como os que já acompanho há mais de 20 anos. Mas, eu insisti no incômodo recorrente na minha axila. Então, ele decidiu pedir mais um exame, coletou um material no consultório e enviou para biopsia, só para desencargo de consciência. No dia da consulta, peguei o resultado, sentei na sala de espera e suportei o máximo que minha ansiedade permitiu para não abrir o exame antes de entrar no consultório médico, o que não foi possível, claro. Li: carcinoma ductal infiltrante com comprometimento axilar. Minha mente e acho que todos os meus sentidos e tudo ao meu redor silenciou. O médico me chamou, sentei a sua frente, entreguei o exame, ele leu e fez uma cara de "que merda", olhou para mim e perguntou se eu havia lido. Diante da minha afirmativa, perguntou se eu havia entendido, eu disse que sim também. Aí ele me perguntou se eu estava só. Falei que estava, mas que meu marido trabalhava perto e eu poderia chamá-lo e assim fiz. Em alguns minutos, Anderson estava lá. Eu já estava trêmula e pensei na primeira coisa difícil: contar para minha mãe - ela não merecia essa dor. Pensei nos meus filhos, no meu trabalho, nos primeiros 5km que eu tinha corrido (devagar, rsrsrs) há uma semana. Quando meu marido sentou, segurou forte minhas mãos e me deu forças para irmos direto ao que interessava. Qual era o tratamento, quando começava, qual era o prognóstico de cura. Pego de surpresa, até o médico, pelo resultado, começou a nos falar que as chances eram boas, que começaríamos por fazer outros exames complementares, mas que o caso era cirúrgico, envolveria quimio e radioterapia. Pegamos os pedidos de exames, consegui marcar na própria clínica para a outra semana. Já era fim de tarde e neste momento eu já não controlava mais o choro, por mais que o Anderson tentasse me acalmar e dizer que o tratamento daria certo. Tive vontade de ligar para minha amiga Luciene, pois sempre conversávamos sobre isso e ela havia passado por um caso recente na família. E aí veio a mão de Deus pela segunda vez, sobre mim. Há muitos anos eu escutei a seguinte frase: " Tudo acontece igual aos que creem em Deus, as respostas é que são diferentes." Ela pediu que eu aguardasse onde estava. Em alguns minutos retornou a ligação e me disse que o oncologista que ela conhecia e que era um anjo estava me esperando imediatamente no consultório dele. Eram já 19 horas. Fomos, eu chorando, Anderson tentando me acalmar e quando entramos na sala daquele homem, ele sorriu, me abraçou...o abraço que eu precisava, como se me conhecesse há anos e disse "minha querida, você está curada...eu, você, seu marido e Deus estamos nesta guerra pra vencer." Olhou os exames que eu havia marcado para a próxima semana e disse que eu os iria fazer agora. Ligou numa clínica e pediu que me atendessem imediatamente. Fiz todos os exames naquela mesma noite, acompanhada pelo braço forte do meu esposo, os telefonemas da minha amiga Luciene, que se oferecia o tempo todo para nos encontrar...Naquela noite cheguei em casa e dormi de exaustão e devido ao conforto que recebi do meu marido, da minha amiga e daquele médico que foi voz e braço de Deus para mim, naquele momento. Depois continuamos nossa conversa...porque tenho muito pra falar do que tenho visto, vivido e aprendido. Sei que não tenho relações superficiais, tenho companheiros de vida e amigos verdadeiros que me tomaram no colo seja presencialmente ou em pensamento e orações e com quem preciso dividir tudo isso. Esta foto é de outubro de 2014 - tirada para dar apoio a três amados amigos que estavam com câncer e em memoriam ao meu sogro.